28 janeiro 2016

Ela

  Ela não era boa para se expressar. Vivia levando palavras na mala, por que nunca eram bem interpretadas mesmo. Será a intonação de sua voz? Será a vontade ardente de ser entendida que atrapalhava?
  Tentar provar que estava certa nunca a ajudou em literalmente nada, e mesmo assim insistia em tentar expor o que por dentro nem ela sabia definir, explicar. Eram palavras, pensamentos demais para organizar em frases.
  Das mil faces que alguém pode ter, a que mais colocava era a de implacável. Aquela que sabe o que quer, aquela máscara que tem escrito em caixa alta " SOU EU MESMA E NÃO VOU MUDAR PARA AGRADAR", mas na real não era nada disso. Sempre tentando se adequar, se alinhar na direção do que lhe parecia certo fazer, e não mesmo( nem sequer por um segundo) seguir a voz na sua cabeça que lhe dizia o oposto. 
  Com o tempo percebeu que as frases que ouvia não eram o que realmente significavam... " Seja você mesma!" era na real " Seja o que eu quero que você seja", "Você é especial" estava mais para " Sou eu que te torno especial". E por assim em diante.
  A dor não era sentida, o amor era inventado e os dias suportáveis. E então depois de muito ferir e ser ferida, de tanto procurar entender os outros e desconhecer a si mesma ela finalmente se olhou no espelho e percebeu, que não adiantava se aprofundar no outro e no que o outro desejava se não compreendia as profundezas do que era ser ela.